terça-feira, 30 de outubro de 2012

chegar e partir

Quando era criança tinha adoração por um certo tio, irmão do meu pai. Lembro que ele era branquinho, tinha lindos olhos azuis, que era atencioso e divertido. Tinha um jeito rústico e mania de morder as crianças - daí pra mim ele era o tio Jacaré. Sempre muito afetuoso comigo, dizia a todos que queria ter uma "filha menina como a Renata".

É dele o registro mais antigo de sentir tanto carinho por alguém (que não fosse pai ou mãe) que a minha memória afetiva prejudicada guardou. Venho de família grande, convivi com muitas outras pessoas, obviamente tenho outros tios e tias queridos, mas quando criança, quem eu mais gostava sempre foi, disparado, o meu tio Olavo.

Quando a gente é criança, vê um monte de coisas que os adultos não percebem. As pessoas fingem menos perto das crianças. Por isso guardo bem a lembrança das pessoas que me tratavam bem nesta fase da vida. Não foram muitas, viu.

Meu tio era uma pessoa complicada, cheia de defeitos. Problemas emocionais. A vida foi dura com ele e ele foi particularmente cruel com as pessoas que o amavam - e que ele amava. Mas ainda assim ele era muito querido e foi capaz de despertar um amor incondicional na esposa e nos filhos. Fez a família sofrer muito, mas sei que ele também sofria. Era inteligente, sensível (a seu modo) e tinha bom coração.

Há mais de 20 anos eu perdi o tio querido que me tratava feito uma princesinha. Ele também se perdeu, se afastou e foi morrendo aos poucos. Hoje ele partiu de vez. Mas peço a Deus que, onde o tio Olavo estiver, saiba que foi amado. Que sua essência, a mesma que foi capaz de oferecer um amor tão puro a uma criança, marcou a mim e fez do meu mundo um lugar melhor e mais feliz pra se viver.

Obrigada, tio. Descanse em paz. Espero que a gente se encontre de novo - e que você encontre a felicidade que merece e que nunca se permitiu viver.

4 comentários:

KS Nei disse...

Tio Jacaré é legal. Segue teu rio, Tio.

cks disse...

ô, nega... eu non tinha visto...
que depoimento bonito. lá do céu ele deve ter ficado feliz em saber que era tão querido...

Lamps disse...

Aaaahhhh gosto tanto quando leio esses textos cheios de sentimentos, de essência, de pureza infantil.
As pessoas são mesmo muito duras, principalmente com elas mesmas, mas, sempre que possível, é bom falarmos dessas "marcas" que guardamos delas, muitas vezes isso faz uma diferença enorme! Não sei se vc teve tempo de falar isso à ele, caso não, agora ele pode sentir tudo e saberá, mesmo depois que nada mais se possa mudar... Meus sentimentos, amiga.
Sempre aqui (no blog e na vida) para o que precisar.
Bjos

Silvia Whatever disse...

"Quando a gente é criança, vê um monte de coisas que os adultos não percebem. As pessoas fingem menos perto das crianças. Por isso guardo bem a lembrança das pessoas que me tratavam bem nesta fase da vida. Não foram muitas, viu."

Puxa vida, vc disse uma coisa que eu sentia mas nunca soube explicar. Era isso, então. Não foram muitas que me trataram bem também não, se servir de consolo. E meus sentimentos (atrasados, desculpe).